sábado, 26 setembro , 2026

A Queermuseu, a cristandade, os costumes sacolejados, a interdição

É claro que o mover-se da História muda as coisas, incluindo as formas de expressão cultural. Mas não conheço tempo em que a arte não tenha sido negócio. Não sei de artista que não tenha buscado sucesso comercial.

Não vejo mal nisso. Não gosto é de ver os artistas postos num mundo à parte. Sempre haverá quem não se corrompa, mas, aí, trata-se de personalidade. Há tipos que não se vendem, mas isso não é apanágio da arte.

Quase todos os artistas trafegaram a alma, muitos mercadejam coisas tristemente horrorosas: lucram denunciando miséria, ou expondo miseráveis. Miséria humana bem pintada, criança miserável bem fotografada: lucro, sempre.

Claro que há denúncias que de fato denunciam. Há explicitações de miserabilidades que nos tocam e comprometem. Nas variadas expressões artísticas há revelações da miséria humana. Lembro Os Miseráveis, que me disse tanto.

Obras artísticas, contudo, são negócios. Victor Hugo vendeu a sua. Eu, se a criasse, venderia a minha. Não acredito que o artista viva para o bem do povo ou do mundo. Nem penso que tenha obrigação de fazê-lo.

O mundo está aí, é pré-dado, é o mundo da vida (Husserl). Todos somos um dia lançados no mundo (Heidegger). Somos colocados na História. Os brasileiros somos postos nos significantes e significados históricos do Brasil.

Os brasileiros significamos o mundo com os significantes que nos foram significados. Nosso mundo significativo nos remete para nosso mundo conceitual. Nossos conceitos são os da Tradição Ocidental Cristã da Idade Média.

A Tradição Ocidental Cristã da Idade Média que habita o Brasil falto de letras nunca foi o bastante tisnada pelo Iluminismo. Napoleão Bonaparte não tomou suficiente conta da Península Ibérica. Restamos religiosos, cristãos, católicos.

Os conceitos cristãos católicos (as demais denominações cristãs talvez desconheçam, mas a Bíblia é de edição constantina) do mundo nos estão subjacentes. Os brasileiros não suportam provocações aos símbolos da cristandade.

Edito O Povo (https://is.gd/My6ld9), que registra confronto entre posições contra e a favor: “Após protestos em redes sociais, a exposição ‘Queermuseu’, no Santanter Cultural, em Porto Alegre (RS), foi encerrada”.

“O cancelamento da exposição foi correto, pois se deu mediante a uma resposta negativa dos cidadãos em geral como consumidores, incluindo os próprios correntistas da instituição financeira (milhares de cancelamentos de cartões do banco).

Trata-se de um boicote da própria sociedade. O caráter duvidoso das obras despertou indignação por se mostrar criminoso. Ridicularizar a fé dos outros está longe de ser arte” (Renata Karla – Grupo de Estudos Veritas)

“A exposição está marcada por controvérsias. Esse título atraiu outro público, que criminalizou a exposição, movido por uma visão de mundo fundamentada na defesa da religiosidade cristã, da família e das pessoas de bem.

O Banco Santander teve interesse de associar a sua marca à arte contemporânea, visando atrelar sua imagem às ideias e práticas de vanguarda, assegurando aos investidores que o Brasil é um país de pensamento arrojado.

Ao aceitar a pressão dos censuradores, despertou-lhes um sentimento de autoridade fiscalizadora dos espaços culturais, amplificada em práticas de linchamento público” (Carolina Ruoso, Professora de História da Arte – UFMG).

Recentemente O evangelho segundo Jesus, Rainha do Céu sofreu censura; as redes sociais exaltaram-se com mulher crucificada em parada gay; Joãozinho Trinta foi impedido de levar Jesus Cristo a desfilar num carnaval.

Arte é negócio, mas é também ideia. Quanto aos negócios, o Santander e os 85 artistas da Queermuseu negociaram-se. Ninguém está purificado dos proveitos do mundo. Mas arte também é expressão de liberdade.

O Santander e os artistas sacolejaram nossos costumes. Mas o Brasil é intolerante, presta conta a preconceitos. Vivemos acanhadamente as franquias desejosas. Prestamos tributo voluntário às interdições religiosas.

Religião ojeriza liberdade, sobrevive de censura. A história das religiões confunde-se com a história do controle das ideias. “A criminalização da arte é o último degrau antes da criminalização do pensamento e do desejo” (Andréa Pachá).

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